Depoimento Mestre Vermelho – Setembro de 2007
Comecei a me interessar pela Capoeira Angola ainda muito jovem, precisamente no ano de 1986, quando participei, em Brasília, do Festival Praia Verde, um evento que teve a participação de capoeiras de várias partes do País, realizado pela Fundação Praia Verde, onde estavam presentes os mestres João Pequeno, Cobra Mansa, Boca Rica e Curió, dentre outros.
Nesta época eu estava com 22 anos e já praticava Capoeira Regional, e a partir deste evento, onde me encantei com a Capoeira Angola, resolvi, juntamente com os hoje mestres Caçador, Guaraná, Bezorro e as Contra Mestras Ana Maria e Valéria, buscar o aprendizado dessa arte em Salvador. Alguns meses após o festival nós aportamos em Salvador. Quando nós chegamos ao Forte Santo Antonio, não foi fácil encontrarmos mestre que aceitassem treinar agente. Felizmente encontramos o Mestre Boca Rica, que nos acolheu e nos deu todo o carinho e atenção que necessitávamos, nunca esqueceremos os dias que passamos sob a proteção e orientação do Mestre Boca Rica. Ele nos levou para conhecer todos os grandes mestres da Bahia. Teve um dia que nós estávamos com o Mestre Waldemar e perguntamos quem ele indicaria para agente treinar, ele disse assim: aí Boca Rica, melhor cantador da Bahia, melhor tocador, não é bom jogador não, mas conhece tudo da Capoeira Angola que você quiser aprender, falou assim para mim, Caçador, Guaraná e Bezorro, e Boca Rica estava do lado: “Não é bom jogador, mas conhece tudo de Capoeira Angola que você possa imaginar”, porque conviveu com todos esses mestres. Então pensamos por que procurar outro mestre, sendo que estamos com o cara do lado e aí nós fomos treinar com ele.
Nós ficamos hospedados no Forte Santo Antonio, no espaço onde o Mestre Boca Rica dava aulas. Como ainda acontecem hoje muitos mestres davam aula no Forte: Na parte de cima Mestre Moraes, Mestre João Grande e Mestre Curió. O Mestre Boca Rica ficava do lado de cá com Mestre “Maçom” e Mestre Valse, na parte de baixo Mestre João Pequeno, o grupo Yalê e o cantor Luiz Caldas que possuía um ateliê juntamente com o Mestre Jerônimo. Nós ficávamos o dia inteiro ouvindo Luiz Caldas ensaiando, nós compramos um pequeno fogão para fazermos as nossas refeições. Caçador, Valéria e Mestre Canjiquinha ficaram muito amigos. Waldeloir Rego também ficou muito amigo da Valéria e do Caçador; e começou a levá-los a museus, dava as informações para eles, caçador tem muitos documentos, um acervo muito grande daquela época em que vivemos lá. O Mestre Boca Rica era tão bom que dizia: vocês podem treinar aqui se quiser. O mestre era bom demais, levava agente em todas as rodas, nós andávamos de abadazinho de saco bem aqui na canela, descalço. Depois que o mestre falou pra nós que tínhamos que jogar calçados, com calça, mas nós queríamos jogar Capoeira Angola. Uma vez fomos numa roda no Forte e um mestre, já falecido, que não gostaria de citar o nome, parou a roda e disse que nós não íamos jogar naquela roda por que nós estávamos descalço e com abada branco de saco, só jogaríamos se tivéssemos calçado, com aquela roupa não jogaríamos. Mas, o mundo dá volta e a volta que o mundo deu: Passaram-se 10 anos… 15 anos, ai olha quem eu encontro aquele mesmo mestre que nos proibiu de participar daquela roda, dando uma oficina para o pessoal da Regional na Universidade Católica de Goiânia, com um cordão branco dessa grossura e descalço. Aí eu falei que ele não tinha moral, que era um mestre desclassificado. Perguntei se ele se lembrava do que havia falado lá na Bahia. Olhe só! O Senhor aí descalço, com cordão na cintura e dando oficina para Regional. Resultado: o pessoal em Goiânia ficou mais de cinco anos sem me convidar para eventos por causa disso. Mas eu tinha que falar…!
Quando nós chegamos à Bahia a Capoeira Angola estava defasada, pouco praticada. Mestre João Grande trabalhava num posto de gasolina como frentista, só quem viveu ali que sentiu a miséria que existia.
Muitos mestres estavam parados ou praticavam pouco a Capoeira Angola. Dentre os poucos mestres que continuavam, lembro-me do Mestre Lua de Bobo, 60 anos ininterruptos de capoeira e o Mestre Moa de Canindé, este não tem lugar, é como lambari: mora em qualquer lugar. Também tem Mestre Raimundo Dias, aluno de Bobo, vi fazer 70 anos, muito bom, grande angoleiro!
Durante o tempo que passamos na Bahia, tivemos a honra de conhecer e conviver com muitos mestres antigos, alguns já falecidos. Mestre Boca Rica é da primeira turma de Pastinha, Waldomiro, Gildo Alfinete, Genésio Meio Quilo. João Pequeno e João Grande já é da segunda turma; Bola Sete também é da primeira turma, começou a treinar capoeira ainda menino, mas infelizmente ele criou uma coisa da cabeça dele, criou graduação, cordão, depois que ele viu o erro que cometeu voltou para a Capoeira Angola. Muitos outros mestres da Capoeira Angola, também, tiveram seus momentos de “convivência” com a Capoeira Regional.
O Mestre Boca Rica nos levou para conhecer até o Mestre Caiçara, que ele não gostava, os alunos do Pastinha detestava Caiçara. Caiçara falou em público que Pastinha não era capoeirista, que Pastinha era pintor, era artista plástico, tem isso gravado, baixa aí na internet que você vê, eu tenho 16 entrevista de Caiçara, ele virou regional puro, ele era angoleiro, quem deu aula para ele foi Aberê, o mesmo Aberê de Pastinha. Caiçara era capoeira de rua, era diferente, jogava capoeira em qualquer roda. Se você perguntasse a ele quem era mestre na Bahia, ele dizia que era Bimba, Noronha, Waldemar e Cobrinha Verde e perguntado sobre o Pastinha ele dizia que ele era capoeirista. Traíra? Capoeirista era só praticante. Caiçara era da pá virada, ele era muito bom capoeirista, era bom demais, jogava muito cantava muito, mas o cara se encantou com a Capoeira que o Bimba criou. Conhecemos também, Zacarias, Brandão, todos ainda vivos. No GCAP treinavam Roberval, Laércio, Caboré, Débora e a mulher do Cobrinha, dentre outros. Devido a um desentendimento deles no GCAP, resolveram ir treinar com agente lá no Boca Rica. Hoje Roberval formou com João Grande a mestre, Laércio tem o trabalho dele também, eles criaram o grupo Filhos de Angola. Por que Filhos de Angola já era de outra linhagem de capoeira, descendentes de Totonho de Maré. Nós éramos todos meninos e montamos esse grupo Filhos de Angola e Boca Rica. Os caras eram bons demais e nós treinávamos muito, 24 horas no Forte, capoeira o dia inteiro, todo mundo que entrava no forte entrava onde? Moraes só abria à tarde, João Pequeno só abria à tarde, e nós lá o dia inteirinho, nós fizemos gravação pro mundo inteiro naquele forte, eu Boca Rica, João Pequeno, Ezequiel, Itapoã e Canjiquinha. A galera ficou louca, porque quando nós chegamos à Bahia, Boca Rica já tinha tido derrame, praticamente um lado dele não fazia nada, recuperou, nós recuperamos Boca Rica. Quando ele deu derrame estava com 50 anos, foi um derrame fraco.
Em 1986, no Festival Praia Verde, Mestre Boca Rica estava recomeçando, não estava jogando direito, você pode pegar a fita dessa época, está no “YouTube”, vocês observem que ele estava andando com dificuldade. Mesmo assim nós acreditamos na recuperação dele e aí agente caiu pra dentro e começamos a treinar mesmo, fazendo os exercícios, visitando rodas, até então ninguém acreditava, quem começou a treinar nessa época era eu o pessoal aqui do Goiás, Ratinho do RS, Tule e Fifi de SP, eram do teatro, eram atores, depois chegou o Sapo de Recife, Zequinha de Piracicaba e depois chegou esse pessoal, João Pequeno tinha Eletricista, Jogo de Dentro.
Hoje em Goiânia, em minha Escola, já recebi e continuo recebendo grandes mestres da Capoeira Angola, tais como Mestres Bom Cabrito, João Pequeno, Virgílio, Cláudio, Jogo de Dentro, Pé de Chumbo, Augusto, dentre outros. Também muitos outros mestres que aqui estiveram não fiz questão de recebê-los. Na Bahia os velhos mestres tratavam muito bem agente. Tinha Mestre que dava aula escondido para nós porque existia ciúmes por parte de alguns. João Grande dizia: venham às 7 horas da manhã. Eu, caçador, Guaraná e o Bezorro, passávamos por uma paredinha assim, de difícil acesso e treinávamos uma hora e meia, durante muito tempo, e após o treino íamos lanchar. Depois chegou Ana Maria e Valeria para treinar com agente. Nós compramos tênis, conguinhas, calças, camisetas amarelas, para os meninos que treinavam lá, eles não tinham dinheiro. O dia que fui visitar Waldemar pela primeira vez, o coração partiu, nós vivenciamos a parte ruim da capoeira e presenciamos a parte boa. Hoje agente vê ai os caras falando mil coisas, cheio de conversas, pouca gente ajudou. Se o Mestre João Grande não tivesse ido para os Estados Unidos, ele teria morrido de fome ou de desgosto, Boca Rica também. Nós demos uma injeção de ânimo nesses mestres, não só agente, depois chegou o pessoal do sul, de são Paulo, abrindo as portas, foi melhorando as coisas. No início o pessoal não deixava agente participar das rodas de capoeira, era fechada, ninguém via as rodas de capoeira. Hoje, depois de muita luta, conseguimos reconhecimento e lutamos pela disseminação e preservação da tradição e dos fundamentos dessa arte-luta herdada de nossos ancestrais africanos.